domingo, 18 de novembro de 2012

Buñuel e Diário de uma Camareira


O diário de uma Camareira de Buñuel e o politicamente correto



            Buñuel é conhecido por seus filmes surreais, especialmente aquela cena do olho vazando, sendo referência em cinema cult. A presente película porém é o que menos tem essa dimensão surreal, por isso mais acessível ao grande público. Trata da história de uma camareira chamada Celestine que consegue fama numa cidade, quando muda-se para trabalhar em casa de família Monteil. Ela tem já certo destaque em relação a outros empregados e revela sua dimensão namoradeira ao conhecer os homens da cidade, em especial seu patrão (que quando não está caçando animais, caça mulheres, segundo o filme...), e, que tem mulher frígida e seu companheiro de trabalho na casa, que a pede em casamento. O filme tem momentos engraçados.
         Destaque fica para o pai do patrão, o qual possui o fetiche de observar sapatos de mulheres, pedindo para Celestine satisfazer sua tara. Também esse senhor parece ser colecionador de coisas estranhas, como fotografias, pelo que parece. A fotografia do filme é muito boa e a versão que presenciei é em preto e branco, o que limita certos detalhes do figurino. Mas Celestine é o arquétipo de Vênus, atraindo amores e interesses de casamento por onde anda. Mas algo começa a desafiar a trama: seu companheiro Joseph é suspeito de estuprar uma pequena menina.
         A menina chamada Claire vivia na casa e ia para a mata colher caramujos. O Joseph, empregado da casa, passava pela estrada a fim de levar coisas em carroça, quando presenciou a desprotegida menina e a abusou. Tal fato se assemelha muito a história de chapeuzinho vermelho dos irmãos Grimm, apesar de menina ser ainda uma criança. Essa cena que se revela desafiadora, por apenas ser mostrada com um porco correndo atrás de um coelho, o que foi o substitutivo simbólico e surrealista a cena da violência, que não existe. Apenas Celestine desconfia de seu companheiro e o entrega a polícia.
         Ocorre de ela ainda namorar um outro homem, seu vizinho e ex militar, Mauger, que é arco-inimigo do seu patrão. Fato que tanto esse vizinho quanto seu marido simbolizam as ideologias de esquerda e extrema direita, raciais e tudo isso. Fica claro nos diálogos que isso revela as mazelas e hipocrisias da sociedade francesa, bem como de todas as sociedades, pelo que busca no politicamente correto e desse em contraste com a realidade, envolta em imoralidades.
         O filme foi baseado em um livro de mesmo título, mas que foi bem mais polêmico em seu tempo, e que também mais engraçado, segundo a crítica do filme. Outrossim, resta a beleza e o deboche de Jeanne Moreau pra compensar essas faltas na adaptação. Também o filme é bem inteligente e se revela algo diferente dos outros trabalhos de Buñuel, bem mais polêmicos. Suas desavenças com a Igreja, exceto em Nazarin, fizeram do produtor alguém que se tornou referência no mundo do cinema. Mas o filme vale à pena e se revela em uma das obras primas, uma vez que no geral vemos apenas clichês e obras repetidas na sétima arte, ficando raros os filmes mais marcantes. Vemos que o politicamente correto e o luxo escondem muitos segredos por trás das cortinas, o que o filme revela de forma sutil e bem humorada.



Um comentário:

  1. Você está conseguindo ser um cinefilósofo bem perspicaz. Não é todo dia que se encontra uma pessoa que se presenteia com um filme em preto e branco. A despeito do porco correndo atrás do coelho, digo que um porco sempre terá espírito de porco, mas que certos porcos não passam de coelhos que viram frustrada a satisfação de sua natureza cunidal.

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