terça-feira, 21 de abril de 2020

Reflexões sobre filme Parasita


Reflexões sobre filme Parasita



 Os cartazes alternativos de Parasita


         Recentemente houve certa relevância de filme Parasita (Parasite), Gisaengchung (Coreano: 기생충), da direção de Bong Joon Ho, vencedor do Oscar de 2020, onde se vê claramente um filme alternativo e com tom de drama, envolto de certo suspense ao final. O filme claramente trata de diferenças de classes sociais e mostra a astúcia de uma família pobre e desempregada ao trabalhar na casa de uma família rica, aproveitando da situação para vivenciar a vida burguesa e todas as suas vantagens. O filme tem bom roteiro, fotografia, bem como os jovens atores mostram considerável desenvoltura, como Choi Woo-shik. O filme também trata de arquitetura e urbanismo. Este ganhou mais fama ao entrar em um streaming de filmes pela internet. 


 Filme Parasita uma análise sem spoiler e sem preconceito em 2020 ...


        Venho acompanhando, juntamente a minha esposa, séries sobre compra de casas luxuosas no Canadá, onde as exigências são variadas, com grande requisito de conforto e espaço. Geralmente pedem um quarto grande e uma cozinha em conceito aberto, senão toda a casa em conceito aberto, com muito vidro, deck, banheiros com duas cubas, pé direito alto etc. Comparada a realidade da periferia, tais casas seriam um sonho para o paraíso após a salvação em Cristo. Contudo, em filme Parasita, a família pobre vive em um porão, de modo que lá não existe luz, e ao ir à casa do patrão, encontram luz, grama verde, sol e tudo o mais que um paraíso reserva. Para o pobre resta esperar um paraíso em um além mundo, além mundo que criticava o filósofo Friedrich Nietzsche, ainda este vendo o povo como um rebanho.  Já o pensador Proudhon dizia que a propriedade é um roubo. No filme, a família que mora num porão sujo acaba por ter a ideia, após a chance de um menino em lecionar como tutor a menina rica, a qual namora posteriormente, a chance de mudar de vida e superar a miséria. Contudo, ao encontrar um homem vivendo em outro porão, que é bunker da mansão do patrão, eles mudam de destino, ameaçando sua vida de rendimento garantido e confortável, como motorista, cozinheira e professores de inglês da família abastada. Marx veria nessa situação toda uma alienação justamente favorecida pela mudança parcial de classe, mas sem a revolução. Mas a família pobre não é honesta, sendo que ao fim não choca tanto ver o ocorrido no filme, uma vez que a fraude de falsos diplomas, qualidades e mesmo parentesco dos empregados, estava por ruir. A questão ética surge, em oposição a necessidade. A lei protege o estado de necessidade, mas não protege uma desonestidade. Também se usa ao fim a legítima defesa, mas uma das pessoas era vítima, o que não se enquadraria nesse tema jurídico. 


Parasite Movie Review | Pôsteres de filmes, Cartazes de filmes e ...


        Por fim, o filme Parasita mostra quase um jeitinho brasileiro em se mudar de vida, superando a pobreza. Apesar da autoria oriental, o povo de países em desenvolvimento deve se identificar em larga escala com a família do porão. As diferenças de classes se mostram ao se subir e descer ao longo da trama, e assim da luz às trevas e das trevas à luz. A religião nem aparece ou muito sutilmente. A arquitetura já se torna algo sem aura, como veria a Escola de Frankfurt, meramente para demonstrar a riqueza e o conforto. O diretor usa do tema contra o capitalismo algo que parece ser agora muito atual. Frente ao Coronavírus, vimos que tudo porém pode ser mais democrático, como disse outro artista famoso Ai Weiwei, chinês. Quando um filme desse vence o Óscar, percebemos que arte mais crítica inda pode ter importância, e que o mundo pode reservar a oportunidade a todos. A fome contudo permanece, e as belas e ricas árvores vez ou outra mantêm parasitas em seus troncos, sobrevivendo do resto de certa nutrição. O filme Parasita é um marco atual de grandes produções, juntamente com o filme Coringa, para mostrar a injustiça e desigualdade social que permanecem no mundo pós-moderno. 


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Filme Lou Andreas-Salomé e a Filosofia


Filme Lou Andreas-Salomé e a Filosofia
           


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     Sempre que se lembra da intelectual, psicanalista e filósofa Luise Lou Salomé, a relaciona ao também filósofo, mas este pop, Friedrich Nietzsche, e muitos a depreciam por seu comportamento liberal para a época, não permitido às mulheres. Lou Salomé atraiu vários pretendentes ao casamento, mas ela sabia que na época uma mulher obedeceria ao marido, cuidaria dos filhos e da casa, não podendo estudar. Assim optou por não se casar por um bom tempo, tendo estudos e contatos com grandes intelectuais de sua época, e abrindo possibilidades a outras mulheres. 

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         O filme é de produção alemã, mostrando um Nietzsche um tanto louro e franzino, diferente do que apresentava em outras produções do cinema, além de se focar mais na mulher que deixou o grande pensador apaixonado. Lou Salomé é retratada como uma menina que desde pequena gosta de fazer o que meninos fazem, como subir em árvores, que não vê limitações a sua existência, pelo fato de ser mulher. Esta era judia e russa, e quando adolescente, conhece um pastor luterano que a deixa apaixonada, em uma biblioteca, mas evita relacionamento por este ser casado, porém conhecendo a filosofia por sua influência. O filme mostra ela achando um livro do filósofo Spinoza, e o pastor lhe indicando começar a ler a filosofia grega, o que encanta sobremaneira a jovem, que se debruça na leitura de pensadores por dias e noites, chegando a dormir na biblioteca. Lou Salomé não mais quis se apaixonar, sendo sobremaneira racional. Ela conversava com homens inteligentes, e este foi o contato que teve, recebendo muitos pedidos de casamento. Depois ela passa a se interessar pela filosofia alemã, e parece que daí conhece Nietzsche, quando apresentado por seu amigo Paul Ree. Depois, Salomé acaba por se apaixonar por um poeta, mas isso quando já Nietzsche tinha falecido, e ela mantinha um casamento de aparências com um homem mais velho, com o qual evitava qualquer contato. Também teria trocado cartas com Freud, e isso a leva para a psicanálise, sendo procurada quando idosa para tratamento, apesar de na Alemanha a atividade ser proibida na época, por ser declarada uma ciência judaica. 




         O filme retrata uma mulher mais digna do que retratada comumente, de modo a levar ela para a filosofia e psicanálise, que era o grande diferencial, e não mera aparência. Isso chocava os homens intelectuais de seu tempo, que geralmente não encontravam uma mulher independente e mais de acordo com seu espírito, para ter um diálogo inspirador. Por outro lado, Salomé acaba se apaixonando por um poeta mais feminino, que lhe desvenda o ser e lhe toca o coração. Essa produção alemã de 2016 deve ser conferida para quem gosta de saber mais sobre a situação das mulheres em século passado e sobre comportamento, bem como cultura e filosofia.
Mariano Soltys, advogado e filósofo

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Filme "Além do bem e do mal" e Nietzsche apaixonado


Filme "Além do bem e do mal" e Nietzsche apaixonado

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Recentemente assisti o filme italiano “Para além do bem e do mal”, dos anos 70, onde mostra o protagonista Fritz (filósofo Friedrich Nietzsche), alemão, em caso amoroso com a russa-judia psicanalista e intelectual Lou Salomé, e ainda em amizade com Paul Ree, que depois se tornaria médico. Nietzsche se mostra nesse filme com mais idade, apesar de apaixonado e aventureiro, trafegando entre a aventura e o pensamento filosófico. O filme já começa em um diálogo onde amigos têm como certo que Deus está morto, ao estilo do pensamento do filósofo alemão existencialista. 

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         O filme “Para além do bem e do mal” usa do polêmico como foco, do retrato íntimo do humano de forma descompromissada e um tanto libertina. Nietzsche se envolve com várias aventuras, apesar de não se saber se isso era fantasia de amigos Paul Ree e Lou Salomé, ou se era algo real e verdadeiro.  As ruas da Alemanha são tomadas por festas, cabarés, pessoas em bacanais, e mulheres trafegam entre a total castidade ou virgindade e entre o desvalor moral. O retrato da histeria se mostra na casta irmã de Nietzsche, que o controla e vê como um homem santo, afastando-o da russa imoral, Lou Salomé, e preservando a família de pastores luteranos, com elevado valor moral e teológico. Já o filósofo Nietzsche transpira rebeldia e retrata a intimidade com a intelectual russa, misturada à inocência, como em uma luta na lama, onde ambos parecem crianças na descoberta mútua. Apaixonado, o pensador ameaça se suicidar, ao pedir ela em casamento, e, em certo momento diz que o “Super Homem” é Lou Salomé, de modo a ser o retrato de um ser humano superior, sem Deus ou qualquer justificação moral de além mundo e paraíso, sem pecado ou arrependimento, e assim vai.  O filme mostra belas casas, pessoas bem vestidas, no belo retrato do fim dos anos 1800, em mudança de século. Já Lou Salomé se mostra a mulher que surgirá no século 20 e 21, livre e independente, buscadora de novos horizontes e voltada para os estudos, afastada de casamento, família, filhos etc. Parece que havia além da histeria da irmã de Nietzsche, uma depressão por parte dele, e mais ainda por parte de amigo Paul, que levava uma pílula de veneno no bolso para algum momento de morte. O filme mostra ainda a família não mais aprovando Nietzsche em casa e querendo que ele renove sua doutrina moral, a fim de alterar sua imoralidade de filosofia. Como é sabido, por fim Nietzsche enlouquece e abraça um cavalo, de modo que sua mãe e irmã cuidam dele, já debilitado. 

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         Quando jovem, eu  lia Nietzsche, e confesso que era um pensamento perturbador. Mas com as biografias e filmes, vejo que o pensador era mais humano, demasiado humano, do que os textos parecem retratar. Principalmente a figura de um Nietzsche apaixonado, bem como seu dia a dia menos filosófico, mostra um choque de imagem que se faz da mera leitura de suas obras. Nietzsche atrai pela rebeldia e leva a filosofia até um público mais jovem, mas ao mesmo tempo vinha de uma família tradicional e religiosa. Deus não morreu por sua causa, mas ainda vive mais forte. Mesmo assim seu pensamento teve relevância, influenciando muitos outros pensadores de renome. O filme é mais um retrato colorido de um Nietzsche apaixonado, transvalorizando valores.